sábado, 5 de junho de 2021

Inter: -valos -lúdios -rupções - mitências

Achava mesmo em fevereiro que ia ter condições de escrever com frequência nesta ferramenta on-line. Só deu mesmo papel e caneta. Aparentemente estar na zona rural de Nazaré Paulista, a 60 quilômetros de São Paulo, já é distância interiorana bastante para afundar as pessoas num vale (para não dizer vala) sem comunicação. As operadoras culpam a geografia e oferecem como a melhor opção a conexão via satélite, que falha quando venta, chove e até com muito sol, o que poderia ser relevado se não fosse o plano de dados que evapora como água e pesa mais no orçamento que o combustível, o mercado e a luz. Ah! A luz. Também falta bastante. Seria bucólico se o abastecimento de água da casa não dependesse de energia elétrica.

Essa litania (talvez esse devia ser o nome do post, ou da página mesmo) não é só para mostrar que a vida de neo-rural tem seus percalços, embora tenha e não sejam esses apenas; não é para justificar a demora em escrever nesse blog. É só para me ajudar a ter clareza das coisas que não posso mudar. O tempo aqui é outro mesmo. Devia ter persistido em ser "blogger" quando vivi na metrópole e havia as condições, as técnicas pelo menos. Agora é tarde. Nem sei se faz algum sentido usar uma ferramenta que ninguém mais usa e escrever sobre coisas que ninguém lê, até porque ainda não tive coragem de contar da existência dessa página. Mas sentido é algo difícil de achar com o mundo do avesso e o desgoverno do Brasil deixando tanta gente morrer porque deve ser bom para os negócios de alguém.

Então que as postagens sejam mesmo espaçadas, que os textos sejam mesmo desabafos enquanto as intempéries assim obrigarem. Nesses intervalos, interlúdios, interrupções, intermitências cuido da família, dos cachorros, da casa, da horta, do jardim; leio os e-books baratinhos do Kindle, os livros da caixinha da TAG (mantive alguns "luxos" para o fardo ser mais leve) e tento produzir algo no ateliê, ainda que sejam desenhos e gravuras de tolices aparentes, como asas de borboletas, o colorido das estações do ano ou o corte da mata que não cessa.  Estar viva no Brasil de 2021 já é a maior importância.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O caos nos ordena

Desde que me mudei para o sítio, a ordem na vida doméstica se desfez, se é que algum dia existiu. Seja por ter coisas demais para aprender, coisas demais para fazer, coisas demais para guardar, coisas demais para arrumar e consertar. Juntamos duas casas em uma. O apartamento tinha 20 anos de vida. E aqui, além da casa de dez anos de nossos ajuntamentos, havia galpões de ajuntamentos alheios com mais de trinta. Fazendo a soma: 30+20+10= 60 anos de bagunça para dar conta! 

Nos três anos desde que montei o ateliê, passei a maior parte do dias limpando, organizando, jogando coisas fora e ainda tenho uma densidade de coisas alta demais para um espaço tão pequeno. Precisei conter o hábito de coletar e guardar as coisas bonitas pelo caminho, e ainda assim tenho caixas e caixas de insetos, folhas, flores, sementes, galhos, raízes, vespeiros, ninhos, ossos, conchas, penas. A tudo isso somaram-se umas cinco coleções de revistas, três enciclopédias, tintas, papeis, pinceis, telas, materiais de desenho e gravura,  e pastas e mais pastas de experimentos, desenhos, fotografias, colagens, gravuras, resultados de oficinas de que participei e tive pena de me desfazer porque fazem parte de meu aprendizado como artista.

A vida aqui, embora difícil pelo desafio de aprender a viver "no mato" se tornou mais simples comparada à da metrópole. Mas falhei no minimalismo. A parte boa é que nunca seremos tão organizados quanto gostaríamos. Aprendi com os budistas. Se me livrar de todas as coisas que, aos olhos alheios entulham o ambiente, vou ficar com um espaço "clean", bonito de sair em fotos, mas sem nenhuma expressão dos meus interesses. Para que todas as coisas que acumulei se transformem em ideias para trabalhos (afinal de contas é por isso que artistas juntam coisas) tenho de passar mais tempo no ateliê trabalhando. Não limpando. Como diz sempre uma amiga artista: se a gente limpa a gente não trabalha.

Para tentar equalizar a fórmula, durante a pandemia estabeleci um procedimento para organizar as coletas: enquanto selecionava, fazia fotos, colagens e desenhos dos elementos. Ao terminar, descartava o que estivesse se deteriorando. Foi uma ótima forma de me colocar a trabalhar durante os primeiros meses terríveis da pandemência mas outra falha no minimalismo. Acumulei desenhos e colagens e não tive coragem de descartar muitas das coletas.

De novo: nunca seremos tão organizados quanto gostaríamos. E por quê? Porque quando dizemos que queremos ser mais organizados estamos com o parâmetro dos outros em mente. As Marie Kondo e Michaela Goes ecoando em nosso pensamento com aqueles ambientes de revista de arquitetura de interiores.

Estudei arquitetura e com os materiais, ferramentas e uma dose cavalar de desapego seria capaz de fazer meu ateliê ficar "instagramável". Mas perderia todo o cultivo desse período de transformação e aprendizado que estou vivendo e que está impregnado em tudo o que tenho produzido nos últimos meses. 

Quem chegar ao Gravural vai ver bagunça. As prateleiras e gavetas estão cheias e cada canto está ocupado, só com espaço suficiente para caminhar entre uma estação e outra, mas superfícies estão limpas e livres e sei onde encontrar tudo o que preciso. Só preciso calar as vozes que me dizem que preciso ter um cenário bonito e deixar todo o encantamento contido nessas "coletânias" aflorar em meu trabalho.   

Essa foto é de ontem. Hoje arrumei mas um pouquinho. Só não criei nada...




O terceiro, ou quarto, é o "charme"

Esse deve ser o terceiro ou quarto blog que começo nesse século. Não sei. Também não sei se terá o destino dos outros, abandonados: um sobre a minha experiência de ser a jornalista na sala de aula de arquitetura junto com jovenzinhos (como os chamava um dos professores de desenho) em sua maioria brancos, de classe média alta, nascidos nos anos 1990, também conhecidos como "milleniums"; outro acho que era sobre a vida urbana, desenho urbano, planejamento urbano, algo assim, pouco importa; e outro ainda, acho que em outra plataforma, para experimentar escrever em inglês. Os motivos do abandono são muitos, e só um. Bloqueio. 

Este em quase nada se difere dos outros: iniciado por impulso, sem qualquer planejamento, com escritos aleatórios e sem disciplina. A diferença é que não tenho a pretensão de um tema por não ter mais a pretensão de ser reconhecida (apenas ser lida ainda que por poucos já é muito). A diferença é que não sou mais jornalista, não sou mais arquiteta, e aprender a escrever em língua estrangeira não é mais uma preocupação (vide o título deste post). A diferença é que dessa vez abandonei qualquer expectativa de resultado que causava o bloqueio. 

Este blog vai ser só para escrever sobre coisas (aparentemente) sem importância, o que provavelmente não o diferencia muito dos escritos em cadernos que eu mesma faço em casa, a não ser pelo fato de que um blog, como dizem alguns, é como uma mensagem na garrafa, ou uma carta endereçada a alguém que não conhecemos ou, como aprendi na escola de jornalismo, um texto visando um leitor geral (essa definição ainda estão me devendo). Mas é isso. Tem uma pessoa que lê do outro lado, ainda que só na minha imaginação. Ter quem leia nos faz pensar melhor, escolher melhor as palavras, construir o pensamento de forma inteligível para o outro e, de alguma forma, realizar uma conexão, aquele toque entre dedos indicadores imaginários que nos diz que não estamos à deriva no planeta.

As palavras que derramo em meus cadernos feitos e escritos a mão não são para outros olhos além dos meus. Muitas vezes nem releio. São quase como uma esfoliação do pensamento, para tirar as ideias mortas. Nem sequer fazem sentido. Por isso ficam só nas folhas costuradas em embalagem de leite ocupando o fundo das gavetas até o dia da reciclagem.

A diferença é que talvez tenha um plano. Escrever várias postagens e só depois de vários textos concluídos contar para as pessoas. Mas essa parte de contar ainda me incomoda. Já chegam os posts nas redes sociais que me obrigam a gastar os parcos dados da internet via satélite para dizer que ainda existo. Melhor. Vou só escrever mesmo, no melhor estilo mensagem na garrafa. Se alguém achar, azar, ou sorte. Não sei. Vou precisar de mais linhas para descobrir.